Sobre eu não sonhar que minha filha seja uma princesa




Eu fui uma criança dos anos 90. Vamos combinar, na nossa geração a gente não via tanta criança por aí vestida em um dia comum de Cinderela, Branca de Neve ou Elsa. Tudo bem, a Elsa ainda nem existia. E ela é uma rainha. E uma rainha bem legal. Mas fomos uma geração que se fantasiava apenas em datas específicas e com aquelas fantasias que nossas mães e pais podiam comprar ou fazer. Era comum gente vestida de odalisca, de lambada, de pirata, nada muito espalhafatoso ou chique demais. Tá bom, tudo bem, as fantasias de lambada eram um tanto quanto chamativas. Eu nunca tive o sonho de ser uma princesa. Eu fui uma criança que cresceu lendo Turma da Mônica. Ao invés de querer morar em um castelo, meu sonho sempre foi ser a dona da rua. 



Talvez por isso me cause estranheza termos uma geração atualmente tão apegadas às princesas da Disney. E nesse embalo de meninas que sonham em um dia ser princesas, temos gente que se aproveita e une a fantasia ao pensamento retrógrado ao ponto de criar uma escola para princesas. Não, essa escola não vai ensinar meninas a como deixar seus cabelos crescerem ao ponto de um príncipe escalar e te resgatar de uma torre. Não vai ensinar meninas a fugirem de maçãs envenenadas e estapearem bruxas más que querem o seu coração. Vai ensinar meninas a entrar em pequenos moldes e ser aquilo que uma sociedade retrógrada espera delas. 

Criaram em Minas Gerais e estão trazendo para São Paulo uma escola "de boas maneiras" que ensina as meninas a serem "princesas". O nome é esse. "Escola de Princesas". Nela, elas aprendem a se maquiar, a arrumar a casa, coisas de culinárias e como se portar à mesa. Coisas realmente essenciais para o desenvolver de um ser humano. Coisas essenciais para uma criança aprender a fazer. Toda menina de quatro anos merece saber como se passa um blush, certo? Em entrevistas, mães que deixaram suas filhas - crianças e pré-adolescentes - nesse curso, dizem que as futuras mulheres adultas saberão como se portar em casa e deixar "mais leve" as coisas para o marido. Em um resumo e interpretação bem prática, ensina as mulheres que suas preocupações são a casa e a aparência. Tudo para servir ao marido. Simples assim.



Delimitar as funções e fantasias de meninas tão novas podem gerar muitos danos no futuro. Eu não espero ter uma filha princesa. Eu espero ter uma filha livre. Livre para fazer suas escolhas, livre para questionar, perguntar, brincar, treinar, tentar. Não quero que minha filha ache que tem obrigação de alguma coisa por ter nascido mulher. Não quero que minha filha seja treinada para servir a um marido que nem ao menos existe ainda - e que ache que a função da sua vida e o seu final feliz só acontecerá quando  e se encontrá-lo. Não quero que ela ache que precisa de um príncipe. Ninguém vai chegar em um cavalo branco para salvar ninguém. Nossas expectativas irreais são responsáveis pelas nossas maiores frustrações.



Minha filha não precisa ser salva por um príncipe. Ela pode ser sua própria heroína. Ela é e será a dona de sua vida e não há escola de boas maneiras que deva delimitar como ela deve se portar em sociedade. Sim, ela deve respeitar o próximo. Sim, é importante que ela saiba como fazer as coisas dentro de casa. Sim, é importante que ela saiba cozinhar. Assim como meu filho deve aprender essas coisas. Assim como o seu filho deve aprender. Assim como você deve aprender. Assim como eu. Ninguém sobrevive por muito tempo a base de miojo e roupas jogadas pela casa. Mas não é preciso uma mulher para organizar tudo isso. Todo ser humano precisa saber.



Quero ter uma filha livre para ser o que ela quiser. Seja dona de casa, seja uma profissional bem sucedida, uma profissional liberal, mãe integral, artista, tudo isso junto, nada disso, um pouco disso, um pouco daquilo. Que seja bela, recatada, do lar, do bar, do mar, da onde bem entender. Que seja dona da rua. E se for uma princesa, que não seja limitada por seu reino e saiba que seu final feliz depende única e exclusivamente dela e das decisões que ela tomar para a própria vida. Até a Disney já está se atualizando. Já temos princesas mais independentes e cientes de que sua felicidade vai além do happy end com um príncipe. A sociedade um dia consegue. A caminhada é longa, árdua, mas vai valer a pena.


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