Sobre Michael Jackson e um garoto tentando salvar o mundo


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Para celebrar a memória do eterno rei do pop, republico esse texto que escrevi em 2009 no blog Cai Muita Garoa.

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Ele era apenas um garoto grande querendo salvar o mundo.

Michael Jackson começou sua carreira muito pequeno. Quando mal sabia ter dominio sobre as próprias palavras, Michael já liderava os Jackson 5. A história de sucesso desse garoto todos já sabem. O que poucos sabem, procuram saber, ou simplesmente ignoram, são os bastidores dessa trajetória.

Michael soube o que era pressão muito novo. Passou sua infância trabalhando como adulto, e a fase adulta querendo voltar a ser criança. Quando pequeno, tinha que lidar com um pai rude, severo, que comandava os ensaios da banda de irmãos com um cinto na mão: qualquer respiração torta, chibatada. Joe Jackson foi responsável por vários traumas de infância nos irmãos Jackson, principalmente no pequeno Michael. O patriarca da família não cansava de demonstrar todo seu "afeto", com palavras singelas para expressar o quanto achava MJ feio ou sem talento. Bom o bastante? Até parece, Michael estava bem longe disso. Diante dos intensos ensaios, apresentações, gravações e desprezo dos demais, Michael encontrou amizade em um ser peculiar: um pequeno rato. Batizado de "Ben", o animalzinho era confidente do futuro rei do Pop. Ao flagrar tamanha intimidade de seu caçula com esse animal, Joe Jackson decidiu ser prático: matou Ben. E lógico, deixou a prova do ato na caixa de sapatos onde Michael escondia o amigo, para que seu filho pudesse ver o feito. Mais tarde, o astro escreveu a música "Ben", para relembrar essa fase.



Mas Joe não parou por aí. Certa vez, enquanto os irmãos Jackson dormiam, Joe decidiu escalar a janela do quarto dos garotos, fazendo uso de uma mascara, para assustá-los e provar que eles não poderiam ter deixado a janela aberta. Posteriormente, em entrevista, Michael confessou que até hoje tem problemas para dormir. Afinal, o que dizer de um pai que rí no dia seguinte a morte de seu filho e ainda faz propaganda de sua gravadora em uma entrevista, dizendo estar "maravilhoso" ao invés de estar de luto?


Em meio aos maus tratos, xingamentos e ironias de Joe Jackson, Michael ia se tornando cada vez mais importante no cenário musical. Ninguém conseguia acreditar no poder que aquela voz tinha, na elasticidade do corpo daquele pequeno menino. Os Jackson vendiam cada vez mais graças ao carisma e talento do pequeno Michael. Mas isso não foi bom o bastante para que sua família reconhecesse seu poder. Mas foi bom o bastante para que gravadoras e empresários quisessem lança-lo em carreira solo.

Enquanto estourava sozinho, crescia o interesse da mídia sobre a vida daquele astro, que difundiu para o mundo a música negra e soube mesclar como niguém R&B, Pop, Rap e Rock. Em contrapartida, Michael não tinha muita vida. Sabia que podia cantar, podia dançar, podia escrever, poderia se expressar por meio de sua arte. Sabia que o palco era seu lugar, e sabia que lá poderia ser livre. Enquanto cada vez mais Michael mostrava domínio sobre o palco, tinha menos domínio sobre sua própria vida. Michael já tinha virado alvo fácil da imprensa, que na época, tinha sua trupe mais marrom do que nunca. Michael dorme em uma câmera para preservar a juventude? Comprou ossos do homem elefante? Tem um caso com um macaco? A resposta de Michael? Por meio de sua arte...





Acontece que não o deixaram sozinho. Michael era cada vez mais perseguido por sangue-sugas e urubus. Todos imaginavam, mas ninguém conhecia o verdadeiro Michael. Seria ele extravagante? Cheio de sí? Poderoso? Na época do sucesso do album Thriller, a revista Rolling Stone levou o astro a sua capa. A edição foi republicada no 25º aniversário do album. No texto, o reporter se mostra admirado com o que encontrou: um garoto timido, de jeans tênis e camiseta do mickey, voz baixa, olhares para o chão. Nada comparado com aquele super astro que se mostrava no palco.

Mas Michael sempre foi assim. Um rei no palco. Não tinha para ninguém. Sempre conseguiu dançar, cantar, entreter o público e fazer uma performance que até hoje ninguém consegue superar. Seus clipes são perfeitas obras de arte, e seus CDs entraram para a história. Mas esse era o único lugar que poderia ser feliz, poderia ser livre. Nos bastidores, não teve infância. Não teve adolescência. E teve centenas de milhões de olhos vigiando todos os seus passos.

Em busca da infância perdida, Michael fazia amizade com crianças. Fato estranho para alguns, mas para ele não era. Michael brincava, pulava, corria, como se fosse um deles. Os pais das crianças? Adoravam! Afinal, seus filhos frequentavam o parque de diversões do maior astro da atualidade. Mas eis que vem a tona o caso Jordan Chandler: garoto de 13 anos que frequentava a casa do astro, pais separados, pai sem poder algum sob a vida do filho, que decide contar ao mundo que seu rebento era abusado pelo grande astro pop. Na época do caso, a CNN conseguiu um audio no qual o pai de Jordan afirmava.. " "Se eu for adiante com isso, ganho uma bolada. June [mãe de Chandler] perderá [a guarda do menino] e a carreira de Michael será arruinada". Na onda do garoto, outros meninos também disseram terem sido abusados por Michael Jackson. Meteram até Macaulay Culkin na história, ídolo mirim da época e amigo de Jackson. Alguma semelhança?

Bom, Macaulay logo desmentiu. Os outro garotos também, alguns voltaram à mídia mais tarde para confessarem que foram tentativas desesperadas das mães de tirarem dinheiro do astro. Michael negou todas as acusações. Michael foi inocentado por juri popular em 2005. Acho meio difícil terem conseguido somente fãs de MJ para inocentá-lo no juri, certo?

Mas para quê acreditar que um astro como Michael não é pedófilo? Por que não acreditar nos urubus da mídia, nos urubus da sociedade, por que acreditar em um ser carente como Michael Jackson?

Michael foi vítima. Morreu por culpa de seu pai. Morreu por culpa das pessoas gananciosas que o cercavam. Morreu por culpa da imprensa, que não poupava o astro nem quando esse resolvia dar um tchau de dentro de seu carro.

Enquanto o mundo lhe tacava pedras, Michael tentava salvar o mundo. Não poupou esforços e nem energia para encabeçar causas sociais, criar letras com temas importantes, ajudar e criar fundações. O Mundo o chamava de pedófilo, ele queria Curar o Mundo . O mundo o chamava de esquisito, ele queria mudar suas atitudes . O mundo destruía o planeta, e ele cantava para salvar a Terra .









Mas para que dar atenção a isso quando o legal é falar mal?

Mesmo após sua trágica morte, mesmo após o mundo chorar sua perda, muitos preferem comentar "as esquisitisses" de Michael ao invés de falarem sobre suas obras sociais, sobre seu legado para a música, sobre sua real importância para o mundo. Salvo algumas exceções, foi priorizado buscar a audiência e focar no destrutivo ao invés de mostrar algo de bom. Deixo aqui registrado a belissima homenagem dos Estúdios Mauricio de Sousa, feita pelas mãos de Paulo Back, de uma sensibilidade ímpar.




Prefiro pensar assim. Prefiro imaginar Michael sendo recebido pela trupe de anjos no céu. Michael cantando Black Or White, Beat it, Billie Jean, Thriller. Prefiro não dar atenção a quem não acredita na verdade, não pesquisa, não se preocupa com a dor alheia.


Afinal, Michael era apenas um garoto grande tentando salvar o mundo. E um grande homem tentando salvar a si mesmo. Que ele consiga, finalmente, encontrar sua felicidade.



Texto originalmente publicado no Cai Muita Garoa em 2009 - Apenas um garoto grande tentando salvar o mundo

Outros textos:
- Quem é o pai?
- Uma Visão sobre This Is It
- Um Ano Sem Michael Jackson - E o Que o Mundo perdeu?


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